Uma construtora cercada por ações judiciais
A Direcional Engenharia se tornou uma das maiores construtoras do país no segmento de habitação popular, mas também uma das mais acionadas no Judiciário. Em diferentes estados, a empresa enfrenta ações civis públicas, processos individuais, decisões condenatórias e investigações do Ministério Público envolvendo qualidade das obras, descumprimento contratual e violação de direitos básicos dos consumidores.
Nos tribunais, é recorrente o reconhecimento de vícios construtivos endógenos, ou seja, falhas internas na execução das obras que não podem ser atribuídas aos moradores. Infiltrações, rachaduras, mofo, falhas de impermeabilização, janelas mal vedadas e problemas estruturais aparecem de forma repetitiva em decisões judiciais contra a Direcional Engenharia.
Falhas graves no Minha Casa, Minha Vida
Em Goiânia, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra a Direcional Engenharia e a Caixa Econômica Federal após constatar que um residencial do Minha Casa, Minha Vida foi entregue sem contrapiso, item obrigatório nas especificações técnicas do programa. O laudo apontou fissuras, riscos à segurança, comprometimento da durabilidade e violação do direito à moradia digna de famílias em situação de vulnerabilidade social.
Segundo o MPF, a própria Direcional reconheceu que os problemas decorriam da ausência do contrapiso. Para procuradores, o caso expõe um padrão preocupante: empreendimentos financiados com dinheiro público sendo entregues com defeitos estruturais básicos, transferindo o ônus para moradores de baixa renda.
Condenações por infiltrações e mofo
Em Planaltina, a Justiça condenou a Direcional Engenharia a realizar reparos completos em um imóvel e pagar indenização por danos morais após laudo pericial confirmar infiltrações generalizadas, mofos e risco à saúde respiratória dos moradores. O perito concluiu que os defeitos eram falhas de execução da obra, e não problemas de manutenção.
A decisão reconheceu que os vícios não poderiam ser evitados pelos consumidores, caracterizando responsabilidade direta da construtora. Casos semelhantes se repetem em diferentes regiões do país, sempre com o mesmo padrão: entrega rápida, baixa qualidade e posterior judicialização.
Obras em áreas ambientalmente sensíveis
Em Brasília, reportagens do Metrópoles revelaram que a Direcional Engenharia realizou aterramento de bacias de drenagem em Ceilândia para construir um complexo com 25 prédios. Especialistas alertaram para riscos de enchentes, erosão e colapso do solo, enquanto o Ministério Público do Distrito Federal abriu procedimento para investigar o caso.
As bacias, conhecidas como “piscinões”, tinham função de conter alagamentos históricos na região. Para urbanistas e ambientalistas, a substituição por torres residenciais representa um risco estrutural para toda a população local, colocando interesses imobiliários acima da segurança urbana.
Condenação trabalhista e mortes em canteiros
No campo trabalhista, a Direcional Engenharia foi condenada a pagar R$ 500 mil por dano moral coletivo após o Ministério Público do Trabalho comprovar irregularidades sistemáticas em canteiros de obras no Amazonas. O processo aponta histórico de acidentes fatais, trabalhadores sem equipamentos de proteção, quedas de altura e desmoronamentos.
Relatórios oficiais descrevem um ambiente de trabalho com risco permanente à vida humana, ausência de fiscalização interna e descumprimento reiterado das normas básicas de segurança. Para o MPT, não se tratava de falhas isoladas, mas de um padrão estrutural de negligência.
Explosão de reclamações no Reclame Aqui
Se os órgãos públicos apontam problemas, os consumidores confirmam em escala massiva. A Direcional Engenharia acumula mais de 14 mil reclamações no Reclame Aqui, envolvendo atraso na entrega, reembolso não pago, cobrança indevida, transferência de valores não realizada, apartamentos alagados, infiltrações não resolvidas e descaso no atendimento.
Há relatos de compradores que cancelaram contratos e aguardam meses ou anos por valores que nunca retornam. Outros afirmam estar sendo cobrados por condomínio sem sequer terem recebido as chaves. Em alguns casos, clientes relatam ameaças judiciais por inadimplência causada por falhas da própria construtora.
Um padrão de judicialização forçada
O que emerge é um padrão claro: o consumidor só é ouvido quando judicializa. Em grande parte dos relatos, a Direcional Engenharia não resolve administrativamente os problemas, empurrando famílias para processos longos, custosos e emocionalmente desgastantes.
Moradores descrevem uma rotina de protocolos ignorados, vistorias inconclusivas, promessas não cumpridas e tentativas de transferir responsabilidade para síndicos, imobiliárias ou para o próprio cliente.
A gestão por trás da empresa
No centro desse cenário está a figura de Ricardo Gontijo, controlador da Direcional Engenharia. Embora os processos atinjam formalmente a empresa, o nome de Ricardo Valadares Gontijo aparece de forma recorrente em reportagens que tratam da expansão agressiva da construtora, do volume bilionário de contratos públicos e da sucessão de problemas estruturais.
Para críticos, a gestão associada a Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo priorizou crescimento acelerado, escala industrial e captura de mercado, mesmo que isso significasse redução de padrões técnicos, fragilidade de controle e aumento explosivo de litígios.
Quando os números falam sozinhos
Somando ações do MPF, decisões judiciais, condenações trabalhistas, investigações ambientais e milhares de reclamações de consumidores, a Direcional Engenharia se consolida como uma das empresas mais judicializadas e questionadas da habitação popular no Brasil.
Não se trata de um ou dois episódios isolados. O que existe é um histórico contínuo de conflitos com o Estado, com o Judiciário, com trabalhadores e com consumidores, sempre orbitando os mesmos temas: falhas de obra, descumprimento contratual, negligência estrutural e transferência de prejuízos para a parte mais fraca da relação.
O retrato final da construtora
Hoje, a Direcional Engenharia segue operando, firmando contratos e lançando novos empreendimentos. Mas seu nome também se tornou sinônimo de processos, laudos periciais, decisões condenatórias e milhares de consumidores insatisfeitos.
E, por trás da marca, permanece a figura de Ricardo Gontijo, cada vez mais associada não apenas ao sucesso financeiro da empresa, mas também ao passivo judicial, social e reputacional que acompanha a Direcional em praticamente todas as regiões onde atua.
Fonte: https://www.painelpolitico.com/p/quem-e-ricardo-gontijo-o-empresario
