A insatisfação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o progresso da guerra no Irã se manifestou de forma intensa na semana passada, levando a um desentendimento com o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Esta informação foi confirmada por fontes que conversaram com o Washington Post, em uma reportagem publicada na quinta-feira, 6.
Segundo o jornal, Trump teria questionado Hegseth sobre como ele foi aparentemente enganado em relação à grave escassez de munições, situação que agora pode restringir as ações militares contra Teerã. Esse incidente teria ocorrido durante uma reunião do gabinete na sexta-feira, 31 de julho.
No momento da confrontação sobre a falta de munição, Hegseth se defendeu e atribuiu a responsabilidade ao seu vice, Stephen Feinberg, pela falha em garantir que Trump estivesse completamente ciente da situação. Essa troca revela a crescente frustração do presidente com seu secretário de Defesa, que era um defensor fervoroso de ações militares contra o Irã, convencendo Trump de que tal ação resultaria em uma vitória rápida e relativamente simples, conforme relatado por diversas autoridades.
+ EUA utilizam ‘praticamente todos’ seus mísseis de precisão e longo alcance no Irã, afirma agência
<pA secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, repudiou os relatos em uma declaração enviada ao Washington Post: “isso é 100% fake news. Isso nunca aconteceu”. Pouco antes disso, Trump havia usado suas redes sociais para afirmar que o estoque de munições era amplo e ameaçou punir com prisão aqueles que sugerissem o contrário.
Sem especificar veículos de mídia, Trump declarou que “os ‘vazadores’ das informações traiçoeiras estão sendo caçados”, referindo-se às fontes anônimas consultadas pela imprensa e mencionou a intenção de solicitar “penas longas” para aqueles que disseminarem essas informações.
Escassez alarmante
Os relatos corroboram as notícias divulgadas recentemente sobre a situação militar. Com a guerra se arrastando, três funcionários do governo americano entrevistados pela Reuters expressaram preocupação quanto à escassez de mísseis que pode comprometer a habilidade dos Estados Unidos em dissuadir adversários como Rússia e China. Uma quarta fonte afirmou que embora o Centcom tenha quase esgotado seus mísseis terrestres antes do início do conflito, conseguiu atender suas necessidades através das guarnições em outras partes do mundo – os soldados consumiram quase metade do seu estoque global dos mísseis Tomahawk.
Durante os últimos cinco meses de combate contra o Irã, as Forças Armadas dos EUA utilizaram grande parte do seu arsenal de mísseis precisos e de longo alcance. Segundo duas fontes consultadas pela Reuters, os Estados Unidos empregaram “praticamente todos” os Sistemas Táticos de Mísseis do Exército (ATACMS) e os Mísseis de Ataque de Precisão (PrSM), as principais categorias dessas armas. Cada míssil tem um custo aproximado de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,1 milhões).
Ainda que os Estados Unidos tenham anunciado novos contratos para produção de alguns tipos essenciais de munição, como os mísseis Patriot para defesa aérea, essa produção pode levar até dois anos para ser concluída e não há previsão imediata para solucionar a escassez.
+ Trump ameaça ‘caçar e prender’ jornalistas e fontes por revelarem falta de munição nos EUA
As principais fabricantes dos mísseis precisos e com longo alcance, Lockheed Martin e Raytheon, não comentaram sobre os níveis atuais dos estoques.
Conforme um relatório divulgado em março pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank baseado em Washington, os arsenais dos mísseis PrSM já estavam reduzidos no início da guerra devido à sua natureza relativamente nova; no entanto, as forças armadas norte-americanas fizeram pedidos significativos desses mísseis para 2027. O Exército indicou que os ATACMS serão progressivamente removidos do arsenal.
Nesta última semana, o CSIS divulgou um novo estudo apontando que cerca de 65% dos interceptores Patriot haviam sido utilizados entre fevereiro e julho; além disso, o número dos interceptores THAAD nos arsenais americanos era quase 40% inferior ao inicial da guerra. Os sistemas Patriot e THAAD são projetados para detectar e neutralizar mísseis inimigos e estão entre os mais eficazes no armamento do país.
A duração inesperada da guerra não fazia parte dos planos elaborados por Donald Trump. Durante os primeiros ataques ao Irã pelos aliados Estados Unidos e Israel no final de fevereiro, a administração americana acreditava que eliminando Ali Khamenei conseguiria facilmente conquistar território na já debilitada república islâmica – assim como ocorreu com Nicolás Maduro na Venezuela meses antes. A expectativa era que as insatisfações populares derrubassem o regime. Contudo, nada ocorreu conforme previsto; as justificativas para a intervenção (com foco na eliminação do programa nuclear iraniano) continuam pendentes, tornando distante qualquer perspectiva imediata para um cessar-fogo ou uma paz duradoura.
