Christa Pike, de 50 anos, foi sentenciada à morte pelo homicídio de sua colega Colleen Slemmer, um crime cometido quando ambas tinham apenas 18 anos. A execução estava programada para ocorrer na quarta-feira, dia 30, e seria a primeira vez em mais de dois séculos que uma mulher seria executada no Tennessee, Estados Unidos. No entanto, ela sobreviveu a duas injeções letais.
<pApós a administração das doses de pentobarbital, um barbitúrico utilizado na maioria dos protocolos de execução em diversos estados americanos, incluindo o Tennessee, foi constatado que seu coração ainda pulsava. Essa substância tem como finalidade induzir a inconsciência e, em seguida, provocar paralisia e parada cardíaca.
Motivos para o insucesso da execução
Pike recebeu as injeções na Penitenciária de Segurança Máxima Riverbend, localizada em Nashville. Kim Chandler, uma jornalista da agência The Associated Press presente durante o procedimento, relatou que Pike parecia estar acordada quando as injeções foram aplicadas. Ela também mencionou que as cortinas da câmara de execução foram fechadas duas vezes durante o processo.
“A boca dela se abriu algumas vezes e ela começou a roncar alto. Ela ofegou algumas vezes, claramente muito viva — até que as testemunhas da imprensa foram instruídas a deixar o local”, comentou a repórter.
Até o fechamento desta matéria, não havia explicações do Departamento de Correções do Tennessee sobre a falha na execução. Clive Stafford Smith, advogado de direitos humanos que já esteve presente em várias execuções para apoiar clientes anteriormente, apontou duas possíveis razões para o insucesso da injeção letal.
“Uma possibilidade é que os medicamentos utilizados estivessem fora da validade. Nos últimos dez anos, temos notado muitos casos em que fármacos administrados não estavam mais dentro do prazo”, declarou ele em entrevista à Al Jazeera.
Dificuldades no fornecimento das substâncias necessárias têm levado alguns estados a experimentar novos métodos e fármacos devido à resistência dos fabricantes em fornecer drogas comumente utilizadas nas injeções letais. O pentobarbital foi desenvolvido para ajudar médicos a salvar vidas.
“Outro fator relevante é que Pike possuía um histórico de severos abusos e dependência química. Isso pode ter dificultado a localização das veias para inserir a agulha. Além disso, nos Estados Unidos é proibido que médicos participem desse tipo de procedimento. O resultado é que pessoas sem formação adequada acabam administrando essas substâncias, o que pode ter contribuído para o fracasso da injeção”, completou Stafford Smith na conversa com a Al Jazeera.
O que vem agora?
A situação atual permanece nebulosa. Após o ocorrido com Pike, o governador do Tennessee, Bill Lee, anunciou nesta quinta-feira, 1º de outubro, a suspensão de todas as execuções programadas até 2026 no estado. Ele também requisitou uma investigação minuciosa por parte de investigadores independentes para entender os motivos por trás do fracasso das injeções letais.
Pike continua hospitalizada nesta quinta-feira e ainda corre o risco de retornar ao corredor da morte.
Caso mal sucedidos não são uma raridade no sistema penal americano. Dados do Death Penalty Information Center indicam que entre 1890 e 2010 ocorreram 8.776 aplicações da pena capital; dessas, 3,15% (276) apresentaram problemas. Durante esse período, as injeções letais tiveram a maior taxa de erro registrada: 7,2%.
Um exemplo é o caso do criminoso Alva Campbell em novembro de 2017 em Ohio. Segundo informações do Death Penalty Information Center, sua execução durou mais de 80 minutos porque os profissionais não conseguiam encontrar veias adequadas nos braços e pernas dele. Após quase duas horas sem sucesso, o Departamento de Reabilitação e Correção de Ohio decidiu cancelar o procedimento. Meses depois dessa tentativa frustrada, Campbell faleceu no corredor da morte devido a problemas relacionados à saúde.
Controvérsias constantes
Apenas uma hora antes da execução programada para Pike ocorrer, um tribunal federal adiou o protocolo para investigar alegações referentes ao abuso sexual e estupro sofridos durante sua infância — questões levantadas por Pike que não foram devidamente consideradas durante seu julgamento inicial.
O caso ganhou grande notoriedade, sendo contestado por especialistas em direitos humanos devido à idade de Pike no momento do crime e seu histórico como vítima de abusos físicos e emocionais além de potenciais problemas mentais não tratados. Desde 1976 até hoje na era moderna da pena capital no Tennessee nunca houve uma execução envolvendo alguém com apenas 18 anos quando cometeu o crime.
Pouco depois daquela quarta-feira fatídica,a Suprema Corte dos Estados Unidos anulou a suspensão, permitindo que o estado do Tennessee prosseguisse com a pena imposta.
A condição clínica de Pike após essa tentativa frustrada não foi divulgada imediatamente e ainda restava dúvida sobre quais ações jurídicas seus advogados ou representantes do estado poderiam tomar posteriormente após ela ser transferida para atendimento médico fora da Penitenciária Riverbend.
Após este episódio mal sucedido, o Departamento de Correções do Tennessee divulgou um comunicado afirmando que “cumpriu todas as etapas do protocolo legal estabelecido pelo estado e aprovado pela Procuradoria-Geral”.
“A substância química utilizada para injeção letal frequentemente demonstrou eficácia consistente e não há previsão no protocolo para procedimentos além daqueles realizados nesta ocasião específica. Christa Pike foi transferida para uma unidade médica externa”, concluiu a nota emitida pelo departamento.
Sobre o caso
A condenação de Pike ocorreu em 1995 logo após ela completar 18 anos quando assassinou Colleen Slemmer aos 19 anos. Na ocasião, contou com auxílio de dois jovens incluindo seu namorado Tadaryl Shipp que tinha apenas 17 anos na época do crime e por isso não pôde ser condenado à pena capital; ele cumpre pena perpétua atualmente.
A investigação revelou que Pike matou Slemmer motivada por ciúmes e obsessão acreditando erroneamente que sua colega tinha interesse romântico por Shipp. Ambas eram colegas no programa Job Corps em Knoxville quando Pike passou a acreditar que Slemmer desejava roubar seu namorado alimentando um forte ressentimento contra ela.
No mês de janeiro daquele ano, Pike junto com seu namorado e outra amiga atraíram Slemmer até uma área isolada sob pretexto de reconciliação onde torturaram brutalmente a vítima por cerca de 45 minutos antes do homicídio consumado.
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A defesa tentou reverter sua sentença alegando evidências insuficientemente apresentadas ao júri durante o julgamento original; na época deste caso específico seu advogado era recém-formado sem experiência prévia em processos relacionados ao homicídio.
Os defensores atuais argumentam que Christa Pike possui um histórico profundo de traumas como abuso sexual infantil abandono familiar lesões cerebrais além de problemas psicológicos não tratados ao longo da vida.
A ocorrência rara de mulheres no corredor da morte é um fenômeno observado nacionalmente: desde 1976 quando houve restabelecimento da pena capital pela Suprema Corte dos EUA, somente 18 mulheres foram executadas nos Estados Unidos comparadas a mais de 1.600 homens nesse mesmo período.
