Em um contexto de tensões diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, a emissora britânica BBC lançou um podcast no dia 12 de julho que usa a situação brasileira como exemplo para discutir se o presidente Donald Trump tem tentado influenciar eleições em outros países. A resposta apresentada no episódio do programa The Global Story é afirmativa.
A produção do podcast analisa o recente esfriamento nas relações entre Brasília e Washington, ressaltando uma realidade que muitos brasileiros têm acompanhado de perto.
<pNo final de julho, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomou a decisão de negar vistos a dois diplomatas americanos, que pertencem ao movimento MAGA (Make America Great Again) e que planejavam se reunir com líderes religiosos e políticos no Brasil. A inteligência brasileira levantou suspeitas de que o verdadeiro intuito da visita era semear desconfiança sobre a segurança das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro, especialmente com as eleições programadas para outubro. Como resposta, os Estados Unidos implementaram um aumento tarifário de 25% sobre produtos brasileiros e revogaram o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A dinâmica entre os dois países ocorre em um cenário onde a eleição está polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, este último considerado o candidato preferido por Washington. Entretanto, aliados do petista revelaram à BBC que um apoio público de Trump ao senador do PL seria bem recebido pela campanha governista, já que a imagem do presidente americano é amplamente negativa entre os brasileiros — principalmente após o aumento das tarifas — permitindo que Lula capitalize em cima do discurso nacionalista e soberano.
A Casa Branca, por sua vez, refutou as acusações de interferência nas eleições, classificando-as como “infundadas” e reiterou seu respeito pelo povo brasileiro, comprometendo-se a colaborar com quem quer que vença as eleições livres e justas.
A nova forma de interferência
Segundo a análise da BBC, ao contrário das tradicionais intervenções dos Estados Unidos, a estratégia adotada por Trump é “mais direta, ousada e centralizada”.
No passado, especialmente durante a Guerra Fria, os EUA frequentemente utilizavam métodos secretos, como financiamento clandestino à oposição ou incentivo a golpes (como ocorreu no Irã, em 1953, e na Sérvia, em 2000). Um estudo realizado pelo internacionalista Dov Levin da Universidade de Hong Kong aponta que houve 128 intervenções desse tipo entre 1946 e 2014.
A abordagem “nova” de Trump se revela mais explícita e aberta.
Historiadores consultados pela BBC destacam que uma diferença crucial é que o próprio presidente se envolve diretamente no apoio político, ao invés de delegar essa tarefa para diplomatas menos graduados. Na América Latina, um exemplo recente foi visto com Abelardo de la Espriella, um candidato ultradireitista eleito presidente da Colômbia, cuja vitória foi impulsionada pela aprovação pública de Trump — especialmente ao prometer assistência americana para lidar com uma crise relacionada ao narcotráfico vigente no país.
No ano passado, na Argentina, Trump condicionou explicitamente uma ajuda financeira do FMI no valor de US$ 20 bilhões à forma como os argentinos decidissem votar numa eleição envolvendo seu aliado político ultraliberal Javier Milei. Além disso, quando o vice-presidente americano, J.D. Vance , visitou a Hungria no início de 2026, ele também fez campanha abertamente em favor do primeiro-ministro ultraconservador Viktor Orbán (que acabou perdendo as eleições).
A BBC conclui que essa postura “de ganho rápido” promovida pela administração Trump está provocando reações intensas na arena internacional e prejudicando a diplomacia americana. Países soberanos estão tomando medidas defensivas: além da negativa dos vistos aos diplomatas americanos pelo Brasil, oMéxico recentemente aprovou uma emenda constitucional visando proteger seu sistema eleitoral contra intervenções externas após acusações diretas contra Washington.
Diplomatas dos EUA entrevistados pela emissora britânica expressaram preocupações sobre como apoiar candidatos alinhados ideologicamente pode comprometer relações bilaterais duradouras. Eles alertam que se o adversário vencer as eleições, “a relação com aquele país estará arruinada”. Além disso, segundo a reportagem, governos estrangeiros têm memória longa sobre interferências passadas, fator que pode gerar sentimentos antiamericanos por várias gerações.
