A aprovação, em dois turnos, pela Câmara dos Deputados, da PEC que propõe o fim da escala 6×1 colocou novamente o trabalho no centro do debate público brasileiro. No segundo turno, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários. O texto prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem perda salarial, e segue agora para análise do Senado.
Mas, para além da tramitação legislativa e das diferentes posições sobre o tema, a votação revelou um fenômeno relevante para líderes, empresas, marcas e profissionais: a disputa em torno da escala 6×1 foi também uma disputa de narrativas.
De um lado, ganhou força uma comunicação fortemente emocional. A defesa do fim da escala foi construída a partir de imagens facilmente reconhecíveis pela população. Baseou-se no trabalhador exausto, o transporte lotado, a rotina pesada, o pouco tempo para a família, o descanso comprimido e a sensação de que a vida acontece apenas nas brechas do trabalho.
É uma mensagem de identificação imediata, já que o público não precisa fazer grandes cálculos para compreendê-la. Basta reconhecer a própria experiência, ou a experiência de alguém próximo, naquela história.
Do outro lado, surgiu uma narrativa predominantemente racional, baseada em impactos econômicos, produtividade, custos operacionais, inflação, sustentabilidade financeira das empresas e possíveis reflexos no mercado de trabalho. É uma argumentação lógica, que exige análise, contexto e projeção de cenários.
A diferença entre essas duas abordagens ajuda a explicar por que alguns discursos ganham mais adesão pública do que outros, mesmo quando ambos tratam de temas complexos. Há mais de dois mil anos, Aristóteles já apontava três pilares da persuasão. Mais precisamente, eles são ethos, ligado à credibilidade de quem fala; logos, relacionado à lógica dos argumentos; e pathos, associado à emoção. A própria tradição da retórica reconhece que a lógica, sozinha, nem sempre é suficiente para persuadir.
Estudos contemporâneos sobre tomada de decisão também reforçam o quanto emoções influenciam julgamentos e escolhas de maneira poderosa e previsível, inclusive em temas que parecem, à primeira vista, estritamente racionais.
Isso não significa que uma narrativa emocional seja automaticamente correta, nem que uma narrativa técnica esteja errada. O ponto central é que quando um tema complexo é traduzido em uma experiência humana simples, concreta e reconhecível, ele tende a ganhar mais alcance, engajamento e poder de mobilização.
A política compreende isso, o marketing e as grandes marcas também. Porém, a comunicação pública, corporativa e institucional também precisa entender.
Muitas vezes, líderes e empresas têm bons dados, bons argumentos e boas razões, mas não conseguem transformar isso em conexão. A comunicação não falha apenas quando a informação está errada. Ela também falha quando está correta, mas distante demais da vida real das pessoas.
Acredito que o debate sobre a escala 6×1 deixa um aprendizado que vai além do Congresso. A pergunta que líderes, empreendedores e profissionais precisam se fazer é “quantas vezes estamos apresentando argumentos tecnicamente corretos, mas incapazes de gerar identificação?” No fim, nem sempre vence quem tem o dado mais robusto. Muitas vezes, ganha espaço quem consegue fazer as pessoas enxergarem, sentirem e se reconhecerem dentro da história que está sendo contada.
Em um ambiente marcado por excesso de informação, polarização e disputa constante pela atenção, comunicar bem deixou de ser apenas transmitir conteúdo. Passou a ser a capacidade de transformar informação em sentido.
E esse talvez seja o maior recado da votação da escala 6×1: uma narrativa forte não é aquela que apenas explica um tema e, sim, aquela que faz o público se ver dentro dele.
Sobre Juliana Albanez – é jornalista, apresentadora de TV, especialista em comunicação, escritora, autora do livro: “Pitch – 3 minutos para comunicar e vender”, palestrante com mais de 12 anos de experiência no mercado de palestras e treinamentos no Brasil e mais 5 países. Já treinou mais de 13 mil pessoas e é mentora da Realize Speakers.
Sobre a Realize Speakers – Realize Speakers é um ecossistema internacional de comunicação estratégica que capacita especialistas e líderes a transformarem conhecimento e histórias em influência, negócios e impacto. Fundado pelas brasileiras Márcia Belmiro e Juliana Albanez, o movimento conecta formação em oratória e posicionamento, eventos internacionais, produção de conteúdo e uma comunidade global de speakers. A Realize também desenvolve palestras e programas de comunicação estratégica para empresas, instituições e universidades.
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