Reflexão: “Três Graças” celebrou o feminino, mas acabou favorecendo o masculino

“Três Graças” se destacou por apresentar um enredo com uma mensagem contundente. A obra, escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, narra a trajetória de mulheres resilientes que enfrentaram abandono, violência, humilhação e desigualdade. A narrativa aborda a relação entre mães, filhas e avós marcadas pela dor, mas também pelo espírito de luta. Durante grande parte da trama, essa proposta foi bem-sucedida.

Personagens como Gerluce (Sophie Charlotte), Lígia (Dira Paes), Joélly (Alana Cabral) e Viviane (Gabriela Loran) foram fundamentais para o desenvolvimento da história. Elas foram responsáveis por carregar os principais conflitos emocionais da trama, enquanto muitos dos homens surgiam como a fonte das dores e traumas vivenciados por essas mulheres. Entretanto, o desfecho da novela parece seguir um caminho contraditório e até decepcionante. No final das contas, quase todos os homens são absolvidos pelas mulheres que prejudicaram.

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O personagem Joaquim (Marcos Palmeira) é talvez o exemplo mais emblemático dessa problemática. Ele abandonou Lígia grávida por anos, ignorou Gerluce em sua condição de filha e nunca formou laços verdadeiros com sua família. Apesar disso, a trama sugere um reencontro romântico entre ele e Lígia, como se décadas de desprezo pudessem ser apagadas pelo simples passar do tempo.

Leonardo também se encaixa nesse padrão. O personagem não foi justo com Viviane em momento algum, mas ao final recebe seu perdão e a chance de reatar os laços afetivos. Mais uma vez, a mulher é mostrada como aquela que perdoa, acolhe e cura.

Raul (Paulo Mendes) representa talvez o exemplo mais desconfortável desse desfecho. Suas ações foram extremamente graves ao longo da novela — inclusive envolvendo sua própria filha — e ainda assim ele termina sua trajetória assumindo uma postura heroica. É ele quem tem direito a cenas de redenção, emoção e reconhecimento.

É importante notar uma diferença significativa: as novelas necessitam de personagens que se redimem. As figuras complexas cometem erros, amadurecem e transformam-se ao longo do tempo. O problema não reside em mostrar homens buscando melhorar suas atitudes. O real dilema é perceber que em “Três Graças”, quase todos deles acabam sendo recompensados emocionalmente pelas mulheres que machucaram.

No fechamento da trama, fica uma sensação estranha. A novela começou ressaltando a força das mulheres protagonistas — independentes e poderosas — mas conclui fazendo com que quase todas elas voltem aos braços de homens que falharam com elas anteriormente, enfraquecendo assim parte do discurso original da história.

A distinção entre retratar mulheres capazes de perdoar e transformar esse perdão em um prêmio automático para homens que cometeram erros durante toda a narrativa é clara. O paradoxo mais intrigante de “Três Graças” talvez seja exatamente esse: uma obra que iniciou celebrando as mulheres acaba oferecendo aos homens desfechos mais confortáveis.

By Noticiei Agora

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